Complicações pulmonares perioperatórias estão entre as causas mais frequentes de morbidade e internação hospitalar prolongada após cirurgias. Com o advento da ultrassonografia no local de atendimento (POCUS), os médicos agora têm uma ferramenta acessível, não invasiva e altamente sensível para avaliar a aeração pulmonar de forma dinâmica.
O que é ultrassom pulmonar e por que ele é importante?
A ultrassonografia pulmonar é uma técnica de imagem à beira do leito usada para avaliar a aeração pulmonar e detectar alterações patológicas nos pulmões. Ao contrário das modalidades de imagem estática, como radiografia de tórax ou tomografia computadorizada, a ultrassonografia pulmonar proporciona visualização em tempo real da dinâmica pulmonar, tornando-se uma ferramenta ideal durante e após procedimentos cirúrgicos.
Por que está ganhando força
- Precisão diagnóstica: Detecta pneumotórax, derrame pleural, edema pulmonar e atelectasia com mais sensibilidade do que raios X.
- Acessibilidade: Dispositivos portáteis e acessíveis que se conectam a tablets e smartphones.
- Segurança: Sem exposição à radiação.
- Usabilidade: Fácil integração em protocolos perioperatórios padrão.
Durante a pandemia da COVID-19, o LUS se mostrou essencial na avaliação de condições pulmonares à beira do leito, reforçando sua relevância em ambientes de atendimento de rotina e de emergência.
Técnicas de ultrassom e tipos de transdutores
Orientação do transdutor
- Orientação longitudinal (sagital): o marcador fica voltado para a posição cefálica; visualiza os músculos intercostais e a pleura.
- Orientação transversal (axial): girada 90°; melhora a detecção de atelectasias sutis e amplia a visibilidade pleural.
Seleção do transdutor
- Linear (alta frequência): Resolução superior para deslizamento da linha pleural e do pulmão.
- Curvilíneo ou phased array (baixa frequência): melhor para estruturas profundas e linhas B; phased array é ideal para espaços intercostais.
Interpretando o ultrassom pulmonar: qual é a diferença entre normal e anormal?
Descobertas normais
- Deslizamento pulmonar: Um brilho da linha pleural à medida que a pleura visceral e parietal se move durante a respiração.
- Linhas A: Artefatos de reverberação horizontal; significam tecido pulmonar bem aerado.
- Pulso pulmonar: Movimento rítmico sincronizado com o coração; exclui pneumotórax.
Indicadores de aeração prejudicada
- Linhas B: Artefatos verticais, semelhantes a laser, indicando síndrome intersticial ou fluido.
- Consolidações subpleurais: Pequenas áreas focais de colapso abaixo da linha pleural.
- Consolidações densas: “Hepatização pulmonar” – tecido pulmonar semelhante ao fígado na ecotextura devido à perda completa de ar.
Esses achados anormais ajudam a diagnosticar graus de atelectasia e sobrecarga de fluidos, auxiliando no manejo intraoperatório.
Sistemas de pontuação de ultrassom pulmonar
Para quantificar a aeração pulmonar, são utilizados sistemas de pontuação padronizados:
1. Pontuação original de ultrassom pulmonar (OLUS)
- Regiões escaneadas: 12 (anterior superior/inferior, lateral e posterior em ambos os lados)
- Pontuação:
- 0: Aeração normal
- 1: ≥3 linhas B
- 2: Linhas B coalescentes
- 3: Consolidação
- Intervalo de pontuação total: 0–36
2. Pontuação de ultrassom pulmonar modificado (MLUS)
- Melhorias: Inclui consolidações subpleurais
- Sensibilidade aumentada: mais eficaz na detecção de perda de aeração pulmonar parcial ou precoce
3. Protocolo anterolateral
- Regiões escaneadas: 8 (apenas segmentos anterior e lateral)
- Faixa de pontuação: 0–24
- Uso: Ideal para pacientes em decúbito dorsal ou quando a varredura posterior não é prática
Essas pontuações orientam intervenções como manobras de recrutamento e titulação de PEEP.
Aplicações práticas durante o período perioperatório
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Monitoramento pulmonar intraoperatório
A ultrassonografia ultrassonográfica (LUS) é utilizada para avaliar a perda de aeração após a indução anestésica, particularmente em cirurgias pediátricas e bariátricas. Estudos demonstram uma forte correlação entre os achados ultrassonográficos e os parâmetros de oxigenação ou imagens de TC.
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Titulação de PEEP com ultrassom pulmonar
Guia passo a passo:
- Varredura de linha de base: Identifique as regiões com pior aeração (pontuações 2 ou 3).
- Ajustar PEEP: Aumentar em 2–4 cm H₂O.
- Repetir verificação: Aguarde cerca de 5 minutos e reavalie a aeração.
- Determinar a PEEP ideal: Pare quando as consolidações ou linhas B forem resolvidas.
A titulação da PEEP usando LUS melhora a oxigenação e a complacência, especialmente em obesos ou laparoscópico pacientes.
Manobras de recrutamento guiadas por ultrassom
Elas envolvem aumentos graduais na pressão das vias aéreas, monitorados com LUS até que as regiões colapsadas se expandam novamente.
Parâmetros típicos:
- Pressão máxima: ~40 cm H₂O
- Passos incrementais: 5 cm H₂O a cada poucas respirações
O recrutamento continua até que as consolidações densas desapareçam. Concentre-se primeiro nas zonas pulmonares dependentes.
Limitações a serem lembradas
- LUS não detecta hiperdistensão alveolar
- As pontuações compostas podem melhorar sem resolver as regiões mais afetadas
- A habilidade do operador afeta significativamente a interpretação da imagem
Avaliação de risco pós-operatório
A ultrassonografia pulmonar é uma ferramenta poderosa para prever complicações respiratórias pós-cirurgia.
Principais descobertas dos ensaios clínicos:

Aplicações pediátricas
O ultrassom pulmonar é igualmente eficaz em crianças, especialmente neonatos e bebês submetidos a cirurgia.
As aplicações incluem:
- Predição da necessidade de surfactante em neonatos prematuros
- Avaliação de atelectasia após indução
- Manobras de recrutamento guiadas reduzindo a hipoxemia
Mesmo com menos regiões de escaneamento, os protocolos LUS pediátricos oferecem excelente precisão diagnóstica.
Direções futuras em ultrassom pulmonar
- Testes clínicos: Necessário para validar intervenções guiadas por POCUS
- Protocolos de subpopulação: Adaptado para cirurgias cardíacas, torácicas e pediátricas
- Programas de treinamento: Para reduzir a variabilidade e padronizar a interpretação
À medida que a pesquisa cresce, espera-se que o LUS se torne um pilar no gerenciamento ventilatório personalizado.
Conclusão
A ultrassonografia pulmonar está transformando o cuidado perioperatório. Com sua precisão diagnóstica, feedback em tempo real e adaptabilidade a diferentes populações de pacientes, a ultrassonografia pulmonar oferece aos anestesiologistas uma ferramenta poderosa para otimizar a função pulmonar e reduzir complicações. Integrá-la à prática de rotina promete melhores resultados para os pacientes e estratégias de cuidado mais individualizadas.
Para informações mais detalhadas, consulte o artigo completo em Anestesiologia.
Tanabe KJ, Fiza B, Bronshteyn YS, Fernandez-Bustamante A. Avaliação da expansão pulmonar perioperatória com ultrassom no local de atendimento. Anestesiologia. 2025;142(6)
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