O transplante hepático com doador vivo (THDV) é um procedimento cirúrgico importante que salva vidas, mas também apresenta desafios significativos, especialmente no que diz respeito ao controle da dor pós-operatória. Embora os protocolos de recuperação aprimorada após a cirurgia (ERAS) enfatizem a analgesia multimodal, as evidências que sustentam estratégias específicas têm sido historicamente fracas. Uma revisão sistemática recente de Saglietti et al. (2025) oferece uma visão abrangente das técnicas analgésicas em evolução e seu papel na melhoria dos resultados em pacientes submetidos a THDV.
Por que o controle da dor no transplante de fígado é importante
O controle eficaz da dor perioperatória é fundamental para:
- Mobilização precoce
- Prevenção de complicações pós-operatórias
- Evitar síndromes de dor crônica
- Melhoria na sobrevida do enxerto e nos resultados para o paciente.
No entanto, apesar de sua importância, existe uma variabilidade considerável nas práticas analgésicas devido à falta de evidências de alta qualidade.
Desafios atuais e lacunas na prática clínica
- Alta dependência de opioidesMais de 80% dos pacientes submetidos a transplante hepático com doador vivo ainda recebem analgesia controlada pelo paciente (ACP) intravenosa com morfina, apesar dos riscos conhecidos, como delírio e íleo gastrointestinal.
- Força limitada das diretrizesAs diretrizes ERAS (2022) sugerem bloqueios TAP, mas desencorajam a anestesia epidural torácica, com base em evidências de baixa qualidade.
- Falta de estudos comparativosAté o momento, poucos estudos compararam diretamente a eficácia de diferentes técnicas de anestesia regional.
Evidências recentes: o que diz a revisão?
Saglietti et al. analisaram sistematicamente estudos publicados entre 2022 e 2024. De 124 artigos, apenas três estudos atenderam aos critérios de inclusão, cada um com foco em uma técnica distinta de anestesia regional.
Estudo: Assefi et al. (2023)
- ProjetoEstudo de antes e depois
- Pacientes: 200 (73 receberam bloco TAP, 127 não receberam)
- Descobertas:
- Redução de 24 mg em equivalentes de miligramas de morfina (MME)
- Não houve diferença significativa nos escores de dor.
- Redução de 24 mg em equivalentes de miligramas de morfina (MME)
- InterpretaçãoO bloqueio TAP pode reduzir a necessidade de opioides, embora os benefícios no alívio da dor não sejam claros.
-
Morfina intratecal (ITM)
Estudo: Kwon et al. (2023)
- ProjetoEstudo retrospectivo com pareamento por escore de propensão
- Pacientes: 742 (336 incluídos após a correspondência)
- Dose: 400 mcg de morfina por via intratecal
- Principais resultados:
- Redução significativa nos níveis de dor e no uso de MME no pós-operatório.
- A abordagem laparoscópica apresentou melhores resultados do que a cirurgia aberta.
- Redução significativa nos níveis de dor e no uso de MME no pós-operatório.
- Advertências:
- Longo período de recrutamento (12 anos)
- A alta dose de ITM aumenta preocupações de segurança
- Longo período de recrutamento (12 anos)
Estudo: Uludag Yanaral et al. (2024)
- ProjetoEnsaio clínico randomizado controlado
- Pacientes: 42 (20 recebidos ESPB)
- Resultados:
- 40% menos consumo de fentanil
- Redução da necessidade de opioides de resgate
- Menos náuseas
- Os escores de dor dinâmica melhoraram, embora os escores de dor estática não tenham apresentado melhora.
- ImplicaçãoO ESPB parece ser seguro, eficaz e reduzir o uso de opioides.

Principais takeaways
- Os blocos regionais são subutilizados. apesar de seus claros benefícios em reduzir o uso de opioides.
- ESPB parece ser a opção mais promissora entre os blocos estudados.
- Mais ECRs de alta qualidade São necessários estudos para aprimorar os protocolos analgésicos.
- O controle da dor deve ser individualizado, equilibrando eficácia com segurança.
A área de controle da dor no transplante de fígado está evoluindo lentamente. Esta revisão recente destaca a necessidade de abordagens personalizadas e baseadas em evidências. Técnicas como blocos do plano do músculo eretor da espinha e morfina intratecal (Em doses mais baixas) mostram-se promissores na redução da dependência de opioides e na melhora da recuperação. Pesquisas futuras serão cruciais para a elaboração de diretrizes robustas e para a otimização do atendimento tanto para doadores vivos quanto para receptores de fígado.
Referência: Saglietti F et al. Analgesia para transplante hepático com doador vivo: uma revisão sistemática de ensaios clínicos recentes. Curr Opin Anestesiol. 2025; 38: 452-456.
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